quinta-feira, setembro 22, 2005

O Pagão do meu pai...

Desde que consigo argumentar sobre futebol com meu velho pai o ouço endeusar Maradona. Para ele, o porteño é insuperável. Tudo o que Pelé fez com duas pernas, cabeça, tronco e membros, Maradona fez, apenas com a perna esquerda. Tem uma certa lógica, mas não concordo, até porque Pelé foi mais completo. Para mim, Pelé foi o melhor e pronto. Ponto! Mas sempre me doeu os ouvidos de tanto meu pai falar do Pibe: “Pelé nunca ganhou uma copa sozinho. Em 86, só deu Dom Diego”, não cansa de repetir.

Lembro-me muito bem de meu velho falando que a seleção de 82 só tinha “armandinho” (designação para jogadores de meio campo que só criavam mas não finalizavam). Era pura maldade. Aquele time que até hoje não sai da minha cabeça? Qual é pai, deixa de ser raivoso. Em 86, o time os armandinhos envelhecidos. “Se no auge da forma perdemos, imagina agora”, dizia.

Veio a famigerada copa de 90 com o mais famigerado ainda Lazzaroni (esse sujeito deveria ser banido do futebol) e aquela seleção retrancada, jogando um “catenaccio” de primeira qualidade. Não deu outra, perdeu. Onde já se viu uma seleção brasileira jogar à italiana? Mesmo assim ainda quase saio no tapa com o velho de tanto ele me pertur bar com aquela jogada genial de Maradona.

Estados Unidos 94, o mesmo “catenaccio”, mas dessa vez ganhamos. Tínhamos Romário para fazer a diferença. Meu pai não perdeu a chance: “com um time desses, era melhor ter perdido”, respondeu a minha mãe quando ela estava feliz pelos filhos, que nunca haviam visto o Brasil ganhar uma copa. Em 98, foi aquela coisa de amarelar pra cá, amarelar pra lá. Nike, Adidas, etc...Concordei com ele.

Chegou 2002, nessa copa, estranhamente ele torceu para o Brasil. Eu nunca havia visto meu pai torcer pela seleção. O que terá acontecido? Simples. Tinha Rivaldo. Criado no tricolor, colocado pra fora por pressão da torcida, mas tricolor de verdade. Rivaldo vinha sendo esculachado pela imprensa, sobretudo a do sudeste, capitaneada por Galvão Bueno, com as jogadas bonitas, mas inoperantes, de Denílson. Várias vezes foram feitas enquetes sobre quem deveria sair para a entrada do atleta do Batis. Sempre Rivaldo era o mais votado. Não houve uma única vez em que o resultado foi outro. O sangue tricolor do meu pai falou mais alto e ele torceu como nunca para que o nosso Rivaldo fosse o melhor da copa. E foi! Apesar da votação ter dado o Alemão.

Afinal, de onde vinha tanto ódio com a canarinha? Lembro do entusiasmo dele ao falar de Mane. Das jogadas de 58, 62 e 70. Por que tanta raiva? A resposta é simples para qualquer tricolor. Meu pai até hoje não engoliu o corte de Nunes, o cabelo de Fogo, da seleção que disputou a copa de 78. Nunes seria o primeiro, e único, jogador de um clube nordestino a jogar uma copa. Mais imperdoável que o corte em si, foi a maneira. Inventaram uma contusão no nosso artilheiro e ele acabou alijado da disputa. O engraçado é que poucos dias depois, ainda antes da copa, ele jogou pelo Santinha, salvo engano contra a coisa, e maçou três gols. É meu pai tinha razão. Foi uma maldade sem precedentes o que fizeram com o nosso artilheiro. Descobri enfim o grande ídolo de meu pai. Para ele não tem Garrincha, Pelé ou Tostão. Assim como Chico Buarque tem Pagão, meu pai tem Nunes. É isso!

Outro dia contarei da visita que Nunes fez ao velho Bosco, meu pai, quando descobriu que ele não torcia pela seleção desde o corte em 78.

7 comentários:

Anônimo disse...

Caralho, muito bons os textos.
Mas discordo de ti, o futebol na epoca do Pele era muito facil, qualquer grande jogador de hoje se jogasse naquela epoca tb acabava com o jogo. Nao da pra ficar comparando jogadores de epocas distintas.
E em 82 soh perdemos pq o Careca se machucou, Serginho Chulapa nao da, neh?

Bosquímano disse...

Eu discordo. o futebol era mais difícil. imagina jogar com uma bola que , quando chovia, pesava uns 10kg. As camisas, idem. Será que seria tão fácil jogar com chuteiras de prego?
mas não dá para ficar comparando mesmo. obrigado pelos comentários.

saudações tricolores.

Anônimo disse...

Meu irmão, belo texto ! Com certeza um belo texto ! Mas permita-me discordar sobre quanto ao velho torcer pela seleção. Lembra daquele Mundial ou Mundialito de Masters ? Brasil X Inglaterra, o Brasil tava perdendo de 1 X 0 no finalzinho do 2º tempo e virou o jogo já nos descontos. Tá certo que não era a "principal", mas nós três vibramos e torcemos muito aquele dia.

Anônimo disse...

Grande Bosquinho!
Belo texto; na verdade, bela crônica, desde o título. A estória da visita de Nunes promete!

Anônimo disse...

Beto, aquele time representava o Brasil que painho gostava. ou seja, o brasil anterior a nunes.

Anônimo disse...

Ademir Queixada já jogou pela Seleção, diz isso a teu pai.

Anônimo disse...

Grande Lau...

Além do Queixada, Vavá tambgém jogou copa e assim como Rivaldo foi campeão. Bebeto também, Aldair também foram Nordestinos que disputaram copa.

o que eu disse foi que Nunes seria o primeiro e único jogador atuando em um clube do nordeste, aliás, norte e nordeste, convocado para uma copa! caso esteja errado, me lembre de alguém...

Diz isso pro teu Pai!