Saudações Tricolores

O dia em que ganhei uma camisa de Givanildo
Era 18 de dezembro de 1983. Um domingo de muito sol no Recife. Era também aniversário de um primo meu chamado Maurinho, acho que ele completaria 4 ou 5 anos. Estávamos em Tamandaré de férias. Na sexta-feira anterior, meu pai tinha ido a pequena cidade de Barreiros fazer a feira, e voltou com três camisetas tricolores. Tinha, então, 9 anos e me lembro muito bem daqueles dias, estava deitado com meu irmão mais velho na rede quando meu pai chegou, jogou as camisas em cima de gente e disse:
- vamos ao jogo domingo, o Santinha será Tri-super-campeão.
Quase não acreditei. Seria a primeira final de campeonato que eu iria ver no Arruda. (Já havia ido algumas vezes, desde o final do anos 70, mas o primeiro jogo que me lembro de ter visto no Mundão foi um chocho Santa Cruz 1 x 1 Central.) Meu pai passou a nos contar como foram os outros dois títulos e nos explicou o que significava um Super-campeonato. Para o leitor de longe, um Super acontecia em Pernambuco quando cada um dos três grandes ganhava um turno, e não havia final, mas um triangular final, que era chamado de Super-campeonato. Até hoje, só houve três títulos decididos dessa forma, e o Santinha papou todos.
Enfim, no sábado acordamos cedo e fomos para Recife. Passamos o dia visitando alguns parentes e meu coração batia forte, não via a hora de entrar no Mundão. No domingo, dia do jogo, ainda tivemos que ir visitar um tio que estava muito doente. Acho que ele era tricolor. Lembro de entrar todo orgulhoso no hospital português. Aquela visita durou umas 10 horas, o tempo não passava de jeito nenhum. Ufa! Saímos, quando ainda caminhávamos pelo corredor do hospital, um velhinho, acho que algum paciente, disse que o Santinha iria perder. Olhei para o sujeito e tive vontade de mandar aquele condenado para a PQP, mas pensei e lhe disse apenas:
- Coitado!
Chegamos ao Arruda e eu nunca tinha visto tanta gente como naquele dia. Subimos umas rampas até as cadeiras. Da cadeira em que eu estava, tinha uma visão perfeita do campo, ou melhor, de todo o estádio. Enquanto o jogo não começava, comecei a observar as figuras que nos cercavam. Uma fileira abaixo, tinha uma “coroa” de uns 25 anos muito bonita, mas logo um detalhe me chamou a atenção. Ela tinha apenas três dedos em uma das mãos. Justamente a que segurava uma pequena bandeira do Tricolor que, diga-se de passagem, nem na hora das cobranças de pênaltis ela parou de agitar. Tinha outro cidadão que dizia ser torcedor da coisa, e que estava tranqüilo ali. Talvez o único tranqüilo. Mas o mais interessantes de todos, era um sujeito forte, sentado ao meu lado que dizia ter sido jogador do Náutico, zagueiro, mais precisamente. Ele estava completamente tresloucado. Dizia que o time dele ganharia, que era muito mais time e que se não ganhasse ele, ao chegar em casa, mataria a mulher, os filhos e depois se mataria. Pensei que só um maluco daqueles poderia ser torcedor do Náutico.
Bem vamos aos fatos. O Alvirrubro tinha um verdadeiro timaço. Faziam parte dele Baiano, Mirandinha, Cantareli, Porto entre tantos outros que não me lembro. Já o Santa, era conhecido como o timinho do Arruda, formado por jogadores da região e alguns pratas da casa que depois ganhariam o mundo. Havia um certo lateral direito chamado Ricardo, que depois virou zagueiro e acrescentou o sobrenome Rocha. Tinha também Zé do Carmo e um tal de Gabriel, um galego de Campina Grande que jogava com uma vontade imensa, meu pai o chamava de Diabo Loiro. Henágio também era desse time. O criolo jogava muito, mas era completamente irresponsável. Dizem, que só Carlos Alberto Silva, o treinador dessa equipe, conseguia fazer o desgraçado jogar bola, e no tapa! Além desses, tínhamos um goleiro, aliás, dois, porque o reserva era tão genial quanto o titular. Luis Neto foi o titular naquele dia e Birigui ficou no banco.
O primeiro tempo transcorria normalmente até que o falastrão Ernesto Guedes (técnico do Náutico) é expulso pelo árbitro Laerte Marquezine. Minutos depois, num bate-rebate dentro da área do Náutico a bola sobra para Gabriel que, de carrinho, manda a bola para o fundo das redes. O povão faz a festa! Terminada a etapa inicial, aquele meu vizinho estava ainda mais alucinado...
Os times voltam para o segundo tempo e eu não me lembro de ter visto uma pressão igual aquela até hoje, muito menos de uma performance de um goleiro como a de Luis Neto. O Santa não conseguia passar do meio campo e, minuto após outro, era uma chegada perigosa do Náutico e uma defesa milagrosa de Luis Neto. Lembro que o elástico do calção dele rasgou e o paredão tricolor tinha que, a todo o momento, ficar ajeitando a peça de roupa... Lá pelos 20 minutos, acho, não me lembro porque, Gabriel foi expulso. Se com onze o negócio tava feio, imagina com dez. Aí foi que Luis Neto apareceu. Se ele jogasse em qualquer time do eixo, teria sido convocado para a seleção brasileira. O jogo segue. O Náutico em cima até que, aos 42, Mirandinha finalmente fura a parede tricolor, o jogo termina empatado, meu vizinho, me perturbava e eu queria dar-lhe um tiro.
Vamos para a prorrogação. Carlos Alberto Silva coloca Django, um centro-avante que desembestou a fazer gols naquele ano, não me lembro no lugar de quem. Enfim, o jogo ta da mesma forma, Luis Neto nos Salvando de todas as formas possíveis e impossíveis. No único ataque tricolor, Django mete uma bola na trava. Mas a prorrogação não sai do zero.
Pênaltis, mais sufoco!
Acho que Baiano abre as cobranças. Náutico 1x0. pelo Santa, vai cobrar Edson Furquim, zagueiro, ele corre e chuta pra fora. A torcida fica muda. Só se ouve aquele medonho N-A-U-T-I-C-O naquele momento confesso que tremi. Achei que a vaca havia ido pro brejo. As lágrimas começavam a cair e meu vizinho cada vez mais a me perturbar. As cobranças continuam até que Mirandinha, justo ele, toma distância e chuta por cima. Os gritos invertem-se, agora só se ouve TRI-TRICOLOR, TRI-TRI-TRI-TRICOLOR! Termina a primeira série e o empate persiste. Vamos para as alternadas, um a um os jogadores vão convertendo.
Quando o alvirrubro Porto ajeita a bola para a cobrança, corre e bate colocado. Luis Neto defende, a bola lhe escapa e vai entrando de mansinho, até que, como um gato, ele segura a bola em cima da linha. Os jogadores do Náutico pedem o gol, os do Santa a defesa. O desespero toma conta dos timbus quando o juiz faz o gesto indicando que a bola não entrou. Aí, amigos, foi a coisa mais linda que eu já vi. A torcida não agüentou e invadiu o campo. Faltava ainda Gomes cobrar o derradeiro pênalti para o Tricolor. Foram necessários 52 minutos para retirar o povão. O detalhe é que ficaram, ao redor do gramado, torcedores, jogadores e comissão técnica de mãos dadas, fazendo a corrente. Foi absolutamente emocionante aquela cena. Gomes, então sacramentou o Tri-supercampeonato.
Naquele dia, ganhei de meu tio, pai do meu primo aniversariante, uma camisa que segundo ele foi do Mestre Giva. Guardo-a até hoje com muito carinho. Ali, exatamente naquele momento, eu compreendi a exata dimensão que o Santinha teria na minha vida.
PS. Não sei se meu vizinho matou a família, mas acho que não. Se ele havia sido jogador, certamente daria nos noticiários.