Amigos, estava eu aqui pensando com meus botões sobre a principal escolha que um ser humano pode fazer na sua vida. (fui aos meus alfarrábios e reli todas as psicologias e filosofias de Caprichos e Contigos da vida). Uma escolha que vai ser determinante no faturo e na formação da personalidade do sujeito. É por causa desta decisão que o indivíduo pode se tornar um daqueles babacas metidos a besta, ou um cara com complexo de inferioridade irrevogável. Em alguns casos pode tornar-se uma pessoa legal, nem metido, nem inferiorizado. Ou, na minoria dos casos, um sujeito que não está nem aí pro mundo. O pior, amigos, é que esta escolha se dá ainda na infância – logo, ela passa longe de ser qual carreira seguiremos, ou qual será a nossa companheira, ou companheiro, até os últimos dias. Como pode uma simples e ingênua criança ser obrigada a tomar tamanha decisão? Como pode recair sobre os ombros de uma simples e imatura criança, que mal aprendeu a falar, o peso uma decisão que vai lhe influenciar pelo resto da vida? A principal decisão da vida de qualquer ser humano é a escolha do clube de futebol que irá torcer.
O pior, amigos, é que o principal inimigo pode estar bem próximo. Qual de vocês, leitores, não teve na figura paterna o principal incentivador pelas cores que hoje adoram? Serão poucos, pouquíssimos, eu afirmo. Quando não foi por ação, foi por reação. Não há outra saída! Vejamos então como tudo começa:
Tudo começa naquele dia de festa, no dia mais esperado do ano (na verdade começou antes, mas para encurtar a conversa, vou começar por aqui), na maternidade, bem ali, na sala de partos. Enquanto a mãe esperneia de dor, em caso de parto normal, o pai está a postos, esperando pala saída do rebento, com a camisa do seu time na mão – no meu caso, o Santinha. A primeira visão que o recém nascido tem do mundo exterior à placenta é a camisa do Santa Cruz. Aquilo vai ficar bem guardado no subconsciente do bebê. Para ele, aquilo se transformará na imagem do paraíso. Eis o primeiro passo para a tomada de decisão.
Pai que é pai, porém, é ardiloso, eu diria até maldoso, frio e calculista, não se contenta apenas com isso. Nem bem o garoto sai da maternidade e ao chagar no seu novo quarto, que deveria estar todo enfeitadinho de bichinhos e brinquedinhos, pintado com cores leves, ele se depara com um quarto pintado em três cores. Vermelho. Branco e preto. Bichinhos, nenhum, aliás, uma discreta cobra coral em forma de almofada que está circulando o quartinho da criança. E claro, uma bola de futebol. E a primeira associação que uma criança faz na vida é que aquela primeira imagem do mundo exterior tem alguma coisa a ver com aquele brinquedo esférico. Que depois ele irá chamar de bola.
O pai não pára por aí. Não, amigos, ele ainda esta começando. Meses depois, quando o bebê já está engatinhando e já não consegue mais parar de brincar com aquela bola (a mesma do parágrafo acima) e começa a balbuciar as primeiras palavras – mamã, papa – o pai, que não é besta, começa a sussurrar no seu ouvido uma outra palavrinha que será a terceira a sair daquela boquinha sem dentes: Santa! E já sai com exclamação e tudo. Está dado o segundo passo.
A criança cresce mais um pouco e começa a entender o mundo e o pai já começa a encher seus ouvidos com histórias do passado. Começa a falar das glorias do time, que agora a criança já compreende, das três cores. Mas o pai é mau, tem um verdadeiro pacto com o diabo. Enfeita todas elas, parece até narrador de rádio. Explica pro filho que aquele é o verdadeiro time do povo, que surgiu sem preconceitos, “imagine, meu filho, em 1914 um negro desenhar o escudo de um time”, diz feliz da vida. “naquela época, os negros e os pobres eram proibidos de jogar futebol. Esse time meu filho, é o mais democrático do país”, completa entusiasmado. A criança não entende bem o que significa democrático, mas gosta da palavra e tem certeza de que aquilo é bom.
O pai diz que foi um goleiro do Santa Cruz o primeiro a defender um pênalti de Pelé. Diz ainda que nos anos 40, o Santa tinha um certo atacante, chamado Tará, que fez 10 gols num só jogo. Não importa, e para isso o pai usa a tática de Ricúpero, se quando defendeu o tal pênalti, Aníbal não jogava no Santa, ou se Tará era jogador do Náutico quando realizou a proeza. Conta ainda sobre um jogador chamado Marinho, o Diabo Loiro, um craque esquecido no fluminense e que barbarizou jogando pelo Santa e foi a maior transação que o futebol viu até aqueles anos. O pai fala de Nunes, um centro avante de cabelos vermelhos que saiu da seleção por pressão de um presidente autoritário. A criança não entende e pergunta o que é autoritário. O pai responde: “autoritário é quem não é democrático, os do bem são os democráticos, os do mau, são os autoritários”. Com uma porrada só, o pai mata dois coelhos. O filho vai começar a simpatizar pela democracia e vai gostar ainda mais do Santinha, afinal, o Santinha já nasceu democrático. Está quase tudo certo, os riscos do filho tomar a decisão “errada” são mínimos.
Depois desta etapa, o pai precisa levar o garoto ao campo de futebol. A criança precisa conhecer pessoalmente aquele time de tantas histórias. É preciso escolher bem o jogo, entretanto. Calmamente, o sujeito espera pela data ideal. Santa Cruz e Íbis, de preferência num dia de chuva, criança adora tomar banho de chuva. Assim, são mais três coelhos. Ele vai ter a desculpa perfeita pelo pouco público e a criança vai poder correr e pular na chuva sem que a mãe fique reclamando. O terceiro, é que não haverá o menor risco de derrota. É preciso explicar que uma derrota agora, pode por todas as outras etapas pelo ralo. Então o pai começa a falar sobre o adversário do dia. Diz que o Íbis é um time muito bom, com vários títulos e que realizara proezas semelhantes às do Santa. O filho fica na dúvida, é um momento crucial. Ele começa a simpatizar por aquele outro grande time que o pai acabou de lhe contar. O pai está tranqüilo, isso quer dizer que toda a preparação anterior foi um sucesso, e sabe que depois da goleada, o garoto nunca mais deixará de ser tricolor. O ritual se repete algumas vezes, mas apenas por precaução.
É assim que uma criança toma a principal das decisões. Vejam, amigos, a que ponto pode chegar a maldade de um pai. Pobre criança iludida. Depois que se escolhe um time, não se pode mais mudar. É aquilo pro resto da vida. Mesmo agora, quando nos sentimos os maiores cornos do mundo, traídos pelo seu mais fiel dos amores, continuamos a amar mais ainda. Temos vontade de esganar quem nos criou tamanha ilusão, mas o pai, agora velho também está sofrendo, ele queria apenas alguém para sofrer junto com ele. Desistimos do crime. Não há mais o que fazer, a não ser esperar que tenhamos nossos próprios filho para fazermos como nossos pais.
Felizes são os filhos dos pais que odeiam futebol!
terça-feira, maio 23, 2006
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Um comentário:
Fala Bosquinho, eu sei bem o que é isso, e o meu pai nem era torcedor do Santinha, mas como os nossos tios e primos nunca poderia deixar de torcer para o time do meu avô. Esse neguinho tá escrevendo muito bem viu. Um grande abraço,
Luís André
Postar um comentário