Amigos, continuando, não as retrospectivas, mas a série de textos não emprestados, segue este do Xico Sá, também da Folha de SP de hoje...
boa leitura...
Ps. Amanhã vou responder aos milhões de leitores que me cobraram a falta de um texto sobre a vitória do Inter, no Japão.
XICO SÁ
Folha de SP
Proposta para salvar o mundo
Tem de tudo, desde mudar hora de jogo e fazer o time ter pelo menos um artista até proibir traje social no banco
AMIGO torcedor, amigo secador, o espumante da empáfia e os fumos da imodéstia fizeram do outrora humilde cronista, nesta justa hora de ilusões e foguetórios, um dom Quixote em branco e preto, um Sancho com a 7 de Garrincha às costas, um salvador da pátria em destemidas travas e chuteiras, um Lazarilho que sabe rir das próprias quedas, um rei Sebastião que sai do ferro velho da sala de troféus para voltar à glória.
Daí esta breve tábua para incrementar a melhor das brincadeiras dos homens, a velha prática ludopédica: que seja abolida a lei do impedimento, os tira-teimas e os bate-bocas das mesas-redondas que discutem se a ponta da napa do atacante estava ou não adiante da sombra do beque no justo instante em que a bola descaiu minguante na área.
Antes, porém, a patroa, alimentando o nosso papagaio Flobé, ainda com os farelos natalinos, protesta, é justo: "Logo agora, desalmado, que nós, fêmeas avançadas, manjamos também da regra?!".
Uma pena, mas, na nossa modesta proposta, a peleja oficial vai ganhar os requintes da pelada, donde o espírito é livre de quaisquer amarras, donde o gol, qual um coito de um asceta priápico, jamais pode ser interrompido antes da pequena morte.
Que os gandulas possam aprontar suas lambanças, sendo permitido só a entrada de um a cada vez em campo, mas tão-somente para ações precisas, como empurrar para o fundo do barbante aquela bola que cisca na marca da cal como uma galinha teimosa que não entra no chiqueiro.
Que o jogo de futebol comece sempre antes da novela da Globo, pois macho que é macho chora bem antes da fêmea e por motivo muito mais nobre. Que o vinho e a cerveja sejam liberados nos estádios de São Paulo, como nas demais praças do país -nem por isso mais violentas do que Pacaembus e Morumbis.
Que o corintiano saía do seu bairro com o são-paulino, um tirando onda do time do outro, que apostem engradados, mas deixem de se agarrarem aos tapas e se ferirem com armas, o que só denota um enviesado amor epidérmico, mais do que sexo.
Que cada time tenha pelo menos um craque responsável só pelo espetáculo, nada mais. Se ajudar o time, bueno, mas não será preciso. Mesmo que o clube não atenda a cota mínima de um artista, que tenha um ponta à antiga, dos ciscadores, dos que "fazem que vão e acabam fondo", dos barrocos, que pegam a bola e cegam pelos labirintos do campo.
Que o responsável pelo corte do gramado, cabeleireiro de sonhos coletivos, tenha feito ao menos um gol na vida, de preferência na várzea, e que adore futebol, pois tudo começa com ele e sua poda, que vale tanto quanto a mais intrigante das táticas. Que ele saiba a máxima bovina de Gentil Cardoso (aqui citada equivocadamente como de Neném Prancha), a da bola de couro, do couro de vaca, da vaca que come grama.
Que seja proibido, aqui nos trópicos, o uso de terno e gravata pelos técnicos, moda que tem adoecido, de suor e imobilismo, os "professores". Seja na caldeira santista ou no inferno carioca. Eles acham que Armani ganha jogo, meu Deus, que a tristeza do Jeca tome conta de suas pobres almas. A mania chegou ao Mirandão, o belo estádio do
Crato, no Cariri, onde estive há pouco, suando em bicas como os cronistas das antigas.
Edgar, o corvo
Aos amigos do RN, que reclamam da falta de palpite para o certame potiguar, que anotem: Mossoró, fácil, fácil. Essa invicta cidade, aliás, foi a única que pôs Lampião para correr, vergonhosamente, dos seus arredores. Pense num povo bravo!
Hai-kai ludopédico (I)
Domingo sem futebol
Os deuses brincam
De chutar o sol.
sexta-feira, janeiro 05, 2007
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