Por Maio Spellman
A temporada de futebol já começou, mas o assunto hoje ainda não é futebol. Boa leitura e aguardo opiniões sobre esse artigo. BOA LEITURA!!
O ativismo atual anti-aids possui novas configurações em virtude do estabelecimento inelutável da globalização e da parceria irremediável estabelecida entre Estado/ONGs. O ativismo, das décadas de 80 e 90, de rua, de passeatas, protestos, abaixo-assinados e de pressão em portas de gabinetes dos gestores governamentais de saúde, transmutou-se atualmente para o ativismo de execução de projetos.
O maior reflexo do impacto da globalização na luta contra a aids foram as transformações ocorridas no interior das ONGs. O modo de ser onguista foi capturado pelo reordenamento do capital, mediante a execução de projetos e também pelo fortalecimento da institucionalização da aids. Ao mesmo tempo em que as ONGs consolidam-se como parceiras do Estado, correspondendo a vigência do modelo globalitário, consolidam também o desenvolvimento institucional da doença porque precisam de um público alvo para executar seus projetos.
Ao enjaular as ONGs, a globalização enjaulou a própria sociedade civil. Pergunta-se: até que ponto as ONGs/AIDS têm se afastado de sua agenda de mobilização ao formalizarem parcerias com o Estado? De qualquer maneira, as ONGs ganharam relevância ao firmarem parcerias com o setor público governamental para execução de projetos.
As novas configurações do ativismo anti-aids deste inicio de século, no Brasil, podem ser resumidos em dois aspectos, conforme apontam resultados da pesquisa de mestrado realizada com membros do Grupo de Apoio à Vida-GAV/Campina Grande: o enfraquecimento/desmotivação pela realização de um ativismo coletivo e a adesão ao tratamento como ferramenta de motivação do portador do vírus HIV para a luta anti-aids.
Em relação ao primeiro aspecto, o enfraquecimento do ativismo coletivo é a opção pelo privatismo, pelo anonimato, presentificado pelo apoio dos portadores à execução de projetos. É o novo modus operandi da ação anti-aids caracterizada pela diminuição do estímulo para lutar, diminuição de voluntários, diminuição da freqüência do portador na ONG, abandono da mobilização em virtude da melhoria da qualidade do tratamento dos portadores, burocratização da ONG em virtude da execução de projetos e pela parceria Estado/ONG.
O segundo aspecto relacionado à prática do ativismo anti-aids diz respeito à adesão ao tratamento como ferramenta de motivação para a luta anti-aids, tendo como alicerce o fato da maioria dos portadores sentirem-se ativistas sem participar das atividades e o afastamento por opção, que tem relação direta com a perda do poder de aglutinação que as ONGs detinham.
Aqui se percebe quanto o poder sobre o corpo é exercido dentro das ONGs. Ao aderir ao tratamento, o portador assume não um procedimento de saúde, mas uma identidade. Passam a ser os monitorados, “o público alvo”, os que recebem tratamento e medicamentos gratuitos. São “os da ONG”. Os cadastrados nos serviços de saúde, que procedem caracterizando e outorgando o biopoder sobre seus corpos.
A ONG, por sua vez, cumpre seu papel de regular a adesão ao tratamento aceitando os ditames da execução de projetos que incluam atividades de formação de grupos de adesão em detrimento de atividades que possam questionar que adesão é essa ou ao que aderir, desconsiderando, assim, que a adesão ao tratamento é um processo de emancipação psicossocial no sentido de que ao aderir ao tratamento o portador estará se assujeitando aos padrões dos medicamentos na tentativa de se sentir melhor e de debelar a doença. O portador, aconselhado, lançará mão das “técnicas” para tomar a medicação e assim se identificar com o tratamento e, conseqüentemente, com a adesão.
Também podemos citar como novas configurações do ativismo, realização de eventos, participação em câmaras técnicas de discussão, a valorização do trabalho dos técnicos na execução de projetos, atividades de prevenção em escolas e empresas, orientação de prevenção a portadores do vírus e como sendo uma prática diferente da militância, pois o ativista é mais organizado e tem metas a alcançar e cumprir.
Portanto, o movimento anti-aids contemporâneo está enjaulado e testemunha silenciosamente a captura da inteligência, da imaginação, da sensibilidade, da criatividade, da afetividade e da força dos portadores do vírus da aids.
As entidades precisam refletir sobre como transformar uma situação de mera execução de projetos, que torna a ONG uma instituição conservadora e funcionalista, para escaparem da perspectiva de mercado, da superficialidade, da não singularização e da produção de consensos que tornam os portadores homogêneos em pensamentos atos e omissões.
domingo, fevereiro 25, 2007
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Um comentário:
Serei franco. Quem pariu Mateus que balance; quem não pariu que descanse.
Observações:
1) por que um "ativismo de rua" é necessariamente melhor do que um "ativismo de execução de projetos"?
Premissa: toda institucionalização e toda parceria com o Estado são negativas por definição. A rua como forma de vida do esquerdismo infantil.
2)o modo de ser onguista foi enquadrado pela globalização e pelo capital?
A globalização vira uma entidade tão viva quanto o mercado dos liberais. Por que não ser um pouco mais prosaico e buscar explicações menos vagas?
3)existe um modelo globalitário que deturpou o caminho (antes)angelical das ongs? Isso levou ao desenvolvimento institucional da doença?
Carai, o que é isso? É de dar medo esse "modelo globalitário". Alerta: evite encontrá-lo num beco escuro.
Insinua-se uma mudança institucional da natureza da doença? O tratamento da aids mudou as condições clínicas dos soropositivos e dos aidéticos. Tornou-se uma doença (quase) crônica. Isso mudou o enfoque da política pública.
É um "foucaultianismo" pueril afirmar que o paciente que adere ao tratamento é um "assujeitado". Melhor tomar um chá de boldo e ir às ruas lutar contra a globalização.
Querer que o soropositivo e o aidético sejam eternos militantes das causas nobres da humanidade é, isto sim, uma forma cruel de "assujeitamento".
4)"Ao enjaular as ONGs, a globalização enjaulou a própria sociedade civil"?
Como? A globalização não é um mefisto. Aliás, o que é a globalização?
5) O Estado possui alguma essência má que infecta qualquer parceria com supostas entidades da sociedade civil?
Paro por aqui. O artigo é um manifesto. Ponto de partida e de chegada são os mesmos. Tudo é produto de uma manipulação sórdida do sistema (globalização + capital). As ongs anti-aids venderam a alma ao diabo.
Existem formas mais inteligentes e mais prosaicas de se criticar as ongs. Ou não?!
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