quarta-feira, novembro 16, 2005

Sobre Violência e Futebol

"como pode ser bárbaro um povo que tem como
maior abstração de triunfo o grito de gol?"
Carlos Drummond de Andrade

Amigos, confesso que estava, pela primeira vez nos meus 31 anos, envergonhado de ser tricolor. Assim que li a notícia do assassinato de um sujeito que, quando estava saindo do seu trabalho, foi brutalmente espancado, fiquei completamente decepcionado, fiquei triste e puto ao mesmo tempo. Será que vale a pena isso? - me perguntava o dia todo.

O tal sujeito era um ambulante que vendia cervejas nas portas dos estádios e que havia acabado de guardar seu material num depósito do Pátio de São Pedro quando foi, segundo a matéria, agredido por torcedores do Santa

Passei o dia ontem inquieto, tentando escrever algo de repúdio a essas atitudes de marginais travestidos de torcedores. E eu que me orgulhava de fazer parte de uma torcida que ainda não havia absorvido a maneira de “torcer” lá das bandas do Rio e São Paulo!

Lembrei de um fato ocorrido há dois anos, quando na fase semi-final da segundona, jogaram Santa e Palmeiras, Náutico e Botafogo, no mesmo dia e horário em Recife. Quando estávamos saindo do mundão em direção a um restaurante na encruzilhada, um pequeno grupo de "tricolores" agrediu um senhor alvirrubro que voltava para casa com a mesma dor que sentíamos. (Tanto o Santa quanto o Náutico, perderam naquele dia) Aquilo foi tão brutal, que até um grupo de torcedores do Santa foi ajudar o tal senhor inimigo. Quando chegamos ao restaurante, soubemos que havia acontecido uma briga lá dentro. Me fiz a mesma pergunta de ontem.

Hoje, ao ler os jornais, fiquei um pouco mais aliviado ao saber que, talvez, a história não tenha sido exatamente essa. Parece que o motivo do crime não foi o futebol. Mas outras divergências, ou a violência crescente das grandes cidades, enfim.

De qualquer forma, acredito que as novas (ou velhas) maneiras de torcer, como as paródias compostas pela Sanfona Coral ainda são muito mais interessantes do que essa moda que vem lá do Eixo de matar um indivíduo porque ele é chegado a outras cores. Ou uma outra moda, vinda das passarelas européias e argentinas, de esculhambar um determinado jogador apenas porque ele tem um pouco mais de melanina. A propósito, essa moda chegou em Pernambuco antes de chegar no resto do país, com os Alvirrubros e o goleiro Nilson. Naquela época (não tão distante), o caso não foi tratado com o cuidado que merecia.

Bem, isso valeria outras teses sobre violência, mas como não sou sociólogo, deixo essa parte para o meu amigo Artur Perrusi, (bicho, feliz aniversário e cadê o texto?), ou para o não menos amigo Aécio Amaral. Bem que eles poderiam fazer uma séria série de textos sobre o tema.


PS. Acabei de lembrar que Artur já havia escrito, para o Futiba, uma série de artigos sobre o tema. Por falar nisso, a frase de Drummond usada acima, foi tirada de um trabalho dele.

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