quinta-feira, outubro 27, 2005


O meu pecado
Por Aécio Amaral


É de se esperar que o assunto do primeiro textículo de Conselheiro Rosa e Silva seja relativo à última rodada da segundona, quando o timbú coroado foi injustiçado no Olímpico e a cobrinha peçonhenta esmagada no Canindé. Porém, como diria o personagem de O Coronel e o Lobisomem: é o inverso disso! Não falarei da derrota do glorioso aristocrático da rua da Angustura porque crônica sobre injustiça nesse país já existe às turras nos matutinos nacionais. Relatarei um episódio que me ocorreu no último confronto entre o glorioso alvirrubro de Conselheiro Rosa e Silva e a Portuguesa nos Aflitos. Trata-se na verdade de dois episódios. O primeiro já faz algum tempo, também num jogo do glorioso contra não sei quem (os adversários do Náutico nunca são merecedores de lembrança). Há uma estranha maldição unindo os dois episódios. Vamos aos fatos!

Estou na arquibancada do caldeirão recifense. O jogo não lembro. O adversário, como já disse, não merece ser lembrado. Fato principal: pênalti pro Aristocrático. Variável interveniente: Kuki se precipita para a cobrança. Meu desespero na arquibancada: Kuki não, porra! Ele perde, ele perde! Hum... Melhor falar mal de Cristo em culto da Assembléia de Deus, de Bin Laden em reunião explosiva (!) da Al Qaeda, ou mesmo de Fidel na imprensa cubana, que ousar arranhar a reputação de Kuki junto à torcida alvirrubra. Quase sofro linchamento público. Na certa pensaram que eu era um burronegro camuflado ou um tricôcô secando o timbuzinho. Pior, tinha ido só pro estádio. Nunca me vi tão aflito. E logo nos Aflitos.

Procurei dar uma de desentendido, desconversei, que é isso galera, eu num quis dizer isso, patati patatá... Kuki cobra o pênalti e, para surpresa de todos menos para a minha, entrega a bola nas mãos do goleiro. Não me canso de dizer que Kuki não é batedor de pênalti. Tanto que vi que o Aristocrático seria campeão no ano do Centenário (foi mal aí, burronegros) quando ganhamos o primeiro turno em cima da cobrinha peçonhenta com um gol de pênalti de Kuki. Depois daquilo, nada nos deteria. Os amigos tricôcôres, babando de inveja por não terem o nosso craque, vivem dizendo que é marcação minha com o baixinho, que sou exigente demais... Mas o fato é que ele não sabe cobrar pênalti. E pronto.

Minha situação se agrava quando, após o desastre, não agüento o desabafo: EU NÃO DISSE! ESSE PORRA NÃO SABE BATER PENÂLTI. EU SABIA. Ainda hoje me pergunto como não fui linchado naquele jogo. Pois bem, passa o tempo e me vejo na arquibancada do caldeirão mês passado pra assistir ao fatídico jogo contra a Lusa. Não bastasse estar numa ressaca do cão, que me fez perder todo o primeiro tempo entre náuseas e vômitos, Pitol me acha de levar um frango (hoje vejo que foi um frango desejável, pois que dali pra frente Rodolpho, o Valentino dos Aflitos, não pára de ameaçar o posto de Dida na Canarinha) no segundo tempo. Aí vem um pênalti no finalzinho do jogo. Alívio da nação alvirrubra. Todos acreditávamos que caberia a Danilo, o príncipe dos Aflitos, punir o penal. Qual o quê, ele passa a coroa pra Betinho. Tensão. Expectativa. O desfecho todos já sabem. E nem é bom relembrar, pois sábado enfrentaremos os ditos cujos novamente.

O que vocês não sabem e nem sequer pressentem é que os desafinados não têm coração! Próximo a mim, um rechonchudo esbraveja, num esganiço de voz: BETINHO NÃO, PORRA! ELE PERDE, ELE PERDE! A sensação de flashback é inevitável. Como o cidadão não tava esbravejando contra Kuki, até que a galera tolerou. Apreensão. Betinho desperdiça a primeira chance. Novamente Betinho posicionado. E o esganiço de voz: ELE VAI PERDER DE NOVO, ELE VAI PERDER DE NOVO. A galera começa a impacientar. Betinho desperdiça de novo. E aí o flashback com toda a força: EU NÃO DISSE! ESSE PORRA NÃO SABE BATER PENÂLTI. EU SABIA.

Quando dei por mim estava entre a turba ensandecida querendo malhar o rechonchudo. Felizmente alvirrubro é pacífico e ficou por isso mesmo. Agora entendo a ira dos compatriotas alvirrubros contra mim naquele dia. E olhe que minha situação era mais grave que a do rechonchudo. Grave não é tanto antever o desastre. O meu pecado foi antever em Kuki o protagonista do desastre.

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