terça-feira, outubro 25, 2005

"Um livro para brasileiro ver"


Quem gosta de futebol brasileiro é obrigado a ler! Assim eu indico o Livro (isso mesmo, com maiúscula) Futebol O Brasil em campo, de Alex Bellos. O autor é um inglês, que mora no Brasil há seis anos (acho) e trabalha como correspondente para os jornais Guardian e Observer.

Em cada capítulo ele aborda um tema diferente, desde os jogadores brasileiros das Ilha Faroe até a CPI da Nike. Ou desde o futebol praticado por índios até o Peladão de Manaus, aliás, o maior torneio de futebol do país, são mais de 500 clubes participantes.

Segundo o próprio autor, o livro foi feito para os leitores ingleses, porém é tão completo que, talvez, apenas 10% do seu conteúdo era conhecido da maioria dos amantes do esporte bretão no país.

Quantas pessoas já ouviram falar do Peladão de Manaus? Ou do futeboi, do futelama? É, foi um belo gol do inglês.

Não vou falar muito, segue abaixo um pequeno trecho:

Início do Capítulo Quinze - 'Diálogo Socrático'

Se o futebol brasileiro em seu apogeu é o ideal platônico do jogo, nada mais razoável que a última vez em que o Brasil jogou seu melhor futebol tenha sido sob o comando de um homem com o nome do mestre de Platão.

Sócrates foi capitão da seleção na Copa de 1982. Com expressão pensativa, passada aristocrática, barba preta encaracolada, cabelos despenteados e olhos escuros, ele parecia mesmo mais um filósofo do que um atleta. Seu estilo de jogo também sugeria uma autoridade moral. Mantinha-se sempre frio, raramente dando mostras da exuberância 'brasileira': nem quando marcava um gol. Não era um caso de velocidade ou de força (seus pés, tamanho 41, eram pequenos para sua altura, 1,91m), mas de visão, passes inteligentes e truques. Sua marca registrada era o calcanhar. Pelé disse que Sócrates jogava melhor para trás do que muitos jogadores jogavam para a frente.

Ao lado dele em 1982 estavam Zico e Falcão, um meio-campo dos mais fortes que já vestiu a camisa canarinho. O time foi derrotado pela Itália por 3x2, ou mais precisamente por Paolo Rossi, que marcou todos os gols italianos. Apesar de não ter ganho o título, a turma de 82 é lembrada com mais carinho do que qualquer outra desde 1970 - muito mais, sem dúvida, do que os campeões de 1994, quando a vitória teve um gostinho amargo pelo fato de o time ter jogado defensivamente e vencido a final nos pênaltis. Em 1982, o Brasil era Brasiiiiiiiil; parecia jogar por puro divertimento.

Lembro de Sócrates nas copas de 1982 e 1986 mais vividamente do que qualquer outro jogador brasileiro. Quando vim para o Brasil, aprendi logo que também era igualrnente excepcional por suas atividades extracampo. Passou a ser o jogador que eu mais queria conhecer. Sócrates iniciou sua carreira no futebol quando estudava medicina. Depois de pendurar as chuteiras, retomou os estudos, formou-se e abriu uma clínica multidisciplinar de medicina esportiva em sua cidade natal, Ribeirão Preto. Seu apelido é 'Doutor':

Porém, o mais importante, Sócrates era um militante. Conseguiu politizar o futebol de um modo que o Brasil jamais havia visto. Jogadores geralmente são das classes trabalhadoras, pobres e sem acesso à educação. O Doutor foi um garoto de classe média brilhante que incutiu seu idealismo esquerdista em seus colegas e acabou assumindo um papel no desdobramento dos destinos políticos de seu país.

PS. o título deste post na verdade foi um comentário feito pelo Juca Kfouri a respeito deste livro.

2 comentários:

Anônimo disse...

Pelo trecho aí, sobre o Sócrates, o livro deve ser bom mesmo. Quando foi lançado ? Qual a editora ?

Bosquímano disse...

O livro foi lançado no Brasil em 2003 pela Jorge Zahar Editor.

ele só tem um defeito (gravíssimo, por sinal), em um capítulo sobre torcedores, ele fala sobre zé do rádio!

mas isso é o de menos.