segunda-feira, outubro 10, 2005

Quando é dia de Futebol

Neste exato momento ele me disse a frase abaixo


“O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols,
como Pelé. É fazer um gol como Pelé’
Carlos Drummond de Andrade

Colegas, quando fiz este blog não queria apenas me prender ao Santa Cruz e sabia o quanto seria árdua esta missão. Queria também escrever sobre músicas, histórias, curiosidades, literatura, entre tantas outras coisas que o esporte bretão nos permite. Tenho um bom material para isto e um material ainda maior de lembranças afetivas.

Já escrevi sobre a adoção da camisa amarela e o nascimento da mística canarinha e sobre a primeira música feita sobre futebol no Brasil. U a zero, de Pixinguinha e Benedito Barbosa, que décadas depois ganharia uma letra de Nélson Ângelo, um mineiro do Clube da Esquina. Isto, entre outras coisas, está aqui. É só procurar! Essa enrolação toda é só para dizer que a partir de hoje, vou indicar alguns livros sobre o tema.

Para começar, nada melhor do que Drummond. Apesar de não ser cronista esportivo, o poeta mineiro nos deixou um belíssimo, porém não muito vasto, material sobre o assunto.

Em “Ciao”, sua última crônica publicada no Jornal do Brasil, ele descreve o encontro com o diretor de um modesto jornal lá pelos anos de 1920, a quem oferece serviços. Quando o homem lhe pergunta “Sobre o que pretende escrever?”, responde “Sobre tudo. Cinema literatura, vida urbana, moral coisas deste mundo e de qualquer outro possível.” E assim foi durante sua vida inteira: escreveu sobre tudo e, em particular, sobre futebol (até futebol de botão).

O livro “Quando é dia de futebol” (Editora Record, 2002), organizado por seus netos Luis Maurício Granã Drummond e Pedro Augusto Graña Drummond, nos apresenta grande parte das crônicas, poemas e cartas, mesmo que tangenciais, sobre o futebol escritas pelo Poeta ao longo de mais de 50 anos. Boa parte do material se baseia no arquivo, cuidadosamente organizado pelo próprio, dos textos publicados durante 30 anos, de 1954 a 1969, no Correio da Manhã; e daí até 1984, no Jornal do Brasil.

Talvez poucos saibam que ele apreciava o esporte e torcia pelo Vasco da Gama, e que o havia adotado como time do coração por ter sido (sobre isto há controvérsias) o primeiro clube carioca a contratar jogadores negros. Nos poemas, crônicas e cartas reunidos nesse livro pode-se observar que, em geral, o futebol serve ao poeta como motivo de reflexão: assim, não é raro que o use como pando de fundo para fazer agudas observações sobre a vida política brasileira.

É leitura obrigatória tanto para quem gosta de Drummond, mesmo que odeie futebol, quanto para quem só goste de futebol!

Para ilustrar:

Futebol

Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
Futebol se joga na rua,
Futebol se joga na alma.
A bola é a mesma: forma sacra
Para craques e pernas-de-pau.
Mesma a volúpia de chutar
na delirante copa-mundo
ou no árido espaço do Morro.
São vôos de estátuas súbitas,
Desenhos feéricos, bailados
De pés e troncos entrançados.
Instantes lúdicos: flutua
O jogador, gravado no ar
­- afinal, o corpo triunfante
da triste lei da gravidade.

In Poesia errante

2 comentários:

Felipe Pimentel Lopes de Melo disse...

lindo bosquinho! lindo!

Marcos Mesquita disse...

Drummond é tudo de bom... De trás pra frente, de frente pra trás ele é meu poeta predileto... Bosquinho, tudo a ver essa foto. Tás bem, viu? Com Drummond e tudo mais... Abração.