
AMIGOS DO BOSQUÍMANO
Eu pequei.
por Artur Perrusi
Começo logo assim para chamar a atenção. Bosquímano sempre afirmou: "comece com uma afirmação daquelas bem chamativas e ganhará a atenção". É a pérola do jornalismo: chamar a atenção; do contrário: rua! Se possível, diga de cara uma besteira, pois a asneira, nos tempos atuais, hipnotiza da cabeça aos pés. Desse modo, repito de novo, justamente para garantir, de vez, o público leitor: eu pequei. Certo, pecar é uma coisa meio ambígua nesses dias amorais. E o próprio Bosquímano já vociferava, dizendo que pecar é coisa de viado. Mas, aviso logo, que meu pecado não é de natureza laica — fornicar com uma cabra, por exemplo — sendo muito mais grave, gravíssimo. Eu transgredi uma lei religiosa: ofendi os deuses do futebol! E, logo agora, justamente agora, quando o Santinha precisa mais de apoio divino. Pois o meu clube, prezados leitores, tem uma relação no mínimo curiosa com os deuses. Quando ocorre uma epifania, quando as divindades baixam aqui no nosso mundinho ordinário, ou acontece um milagre, o que é raro, raríssimo (vide 99), ou uma desgraça daquelas, o que parece ser uma rotina maldosa dos lá de cima. Por isso, não se deve mexer com o além, pois lá reina a infinita imprevisibilidade — na verdade, os deuses do futebol são os seres mais cínicos do panteão; não respeitam regras, nem pedidos, e fazem o que lhes der na telha. Fique na sua, mas não peque, não os irrite, não os ofenda, senão babau: o Imponderável de Almeida baixa e acaba com seu clube.
O pecado é monopólio dos religiosos. Quem peca, acredita. Teve fé, pumba!, vai pecar adoidado! Os maiores pecadores da História são justamente os mais fervorosos, os mais santos, os mais religiosos. Mas, paradoxalmente, o fato de pecar não significa que eu seja religioso. Ledo engano! Sou ateu, tendo pavor do sobrenatural, e materialista vulgar, acreditando que o espírito é apenas uma secreção do cérebro — sabe a bílis? Pois é, o espírito é um tipo de bílis, e o pensamento é um líquido esverdeado, amargo e viscoso. Porém, reconheço que existem pecados acima de qualquer crença, e mesmo da total descrença. Certo, é um paradoxo, mas deixe-me explicar: Deus se escafedeu, mas a morte do Absoluto não eliminou as últimas entidades, justamente aquelas que restaram para atazanar o reino do Homem: os deuses do futebol! O futebol é, ainda, um reino encantado, no qual o imponderável e o místico dominam absolutamente. Os deuses não eram astronautas, e sim boleiros. São entidades niilistas, todas leitoras de Nietzsche e de Maquiavel. Por isso, pode-se comer uma cabra, a vizinha, a mulher do amigo, a aluninha de 19 anos, mas tudo isso, já que Deus safou-se do Universo, não será pecado, embora não seja politicamente correto — aliás, como já me alertou um sábio celta, diante do meu puritanismo: - Artur, o que você tem contra as menininhas de 19 anos?! No futebol, não, aqui há pecados. Não seguiu as regras, pecou. Cometeu uma imprudência, pecou. E sua condenação é rápida e fatal: seu clube vai pro inferno e você vai junto...
Sim, eu pequei. Vejam o jogo contra a Portuguesa. Alguém pode explicar aquilo de forma racional?! Ninguém. A explicação é sobrenatural, completamente mística. E, até então, somente eu sabia do acontecido, da única razão possível: infringi as regras, cometi um pecado, e o Santinha tomou no bacalhau! Assim, escrevo essas linhas, tremendo feito uma vara verde, como forma de expiação, com a esperança de que os Deuses entendam que, o que fiz, foi um ato falho, sem querer. É uma expiação, pois não quero levar, eternamente, o peso da culpa. E culpa é um lobo que devora a alma, de forma lenta e dolorida. Não, não quero isso, por isso vou logo contando o que me aconteceu, a história da culpa, que pode muito bem ser a culpa da história.
A estória começou assim: um menino ajudou-me a contornar uma barreira do MST, lá pelas bandas de Alagoas. Não tinha saída. Todo lugar tinha um sem-terra cobrando pedágio. Já estava desesperado, pois tinha me metido num ermo, num lugar impossível, tentando contornar a barreira de fogo dos valorosos maoístas brasileiros, não sabendo direito como sair. O menino apareceu, disse que podia me tirar do sufoco, contanto que recebesse uns trocados. Aceitei. Foi um erro. Crianças que aparecem do nada, na verdade, são enviados do Demo. Freud já avisara que crianças são umas pestes, pequenos demônios, que desejam pai e mãe, o escambau! Eu tinha esquecido da lição freudiana. Confiei no pequeno. E, de fato, ele encontrou um caminho que contornava a barreira, sem leninistas da terra para atrapalhar. Nesse momento, o Destino começou, não tinha notado ainda, a pregar peças. Não tinha mais dinheiro. Os pedágios tinham engolido toda a minha grana. Diante da minha miséria, o menino fez a cara mais desalentada do mundo. Tive pena. Ele tinha ajudado. Foi quando apontou para um chapéu do Santinha que estava no banco de trás. Claro, por que não oferecer um chapéu do Santa? Não havia melhor forma de pagamento. Dei o chapéu. Na mesma hora, senti uma coisa estranha, remexendo os nervos e, ao mesmo tempo, esfriando a barriga. Juro que escutei gargalhadas vindas lá do Céu. Muitas gargalhadas. Num instante, compreendi o que fizera, sabia já do erro ignominioso. O pecado era claro. Desanimado, fiz a pergunta óbvia, a primeira que deveria ter sido feita e não a última, pós-fato, pós-culpa eterna. Eu perguntava por perguntar, apenas para assumir de vez a minha própria imbecilidade.
Olhei o menino, suspirei fundo, e indaguei:
- Qual o teu time?
O cabra olhou-me fundo nos olhos e, de repente, abriu a porta do carro e saiu correndo. Parou, virou-se. Não era mais um menino, e sim um rebento do Caifás. Olhou na minha direção e gritou, com uma voz esquisita e extravagante:
- SOU DO SPORT!
Fiquei calado. Passei muito tempo vendo o menino correndo e sumindo no horizonte. Sentia-me cansado. Meu incômodo era ultrapassado pelo insuportável, vencido pelo inacreditável, superado pelo impensável, batido pelo inadmissível... Sabia que o improvável tinha se tornado inevitável. Um torcedor da Coisa! Um abominável demônio travestido de menino inocente. Entreguei o chapéu do Santinha para a criatura mais vil do Universo. Sou um pecador. Cometi o pecado mais impagável do Reino do Futebol. Estava explicado o que tinha acontecido naquele jogo contra a Portuguesa. Tudo ficou claro. Uma clareza infernal.
Peço, assim, desculpas aos Deuses do Futebol. Rogo perdão. Acho que o sofrimento causado já foi o bastante. Eu aprendi a lição. O Santa não merece mais continuar pagando o erro de um desavisado. Já bastou a humilhação e a goleada. Espero que, a partir do jogo contra o Grêmio, os Deuses renunciem às conseqüências punitivas que foram justificadas (sim, confesso) em face de uma ação que, em níveis diversos, transgrediu preceitos esotéricos e religiosos vigentes — desculpe a linguagem, mas é necessário, para pedir perdão a Deuses, um mínimo de formalidade jurídica...
Deuses, peço desculpas!!!
Para ler outros textos do Artur, clique aqui
Um comentário:
Calma Arthur,
Na minha opinião você não cometeu um pecado. Na verdade pode ter sido uma boa ação. Aquele pobre diabo torcedor da Koisa pode ter sido abençoado com o boné do santinha. Não te preocupes, a não ser que a vó dele seja macumbeira poderosa e tenha amarrado aquele boné na boca de um sapo, você pode ter contribuido para a formação de um novo tricolor.
Calma
Postar um comentário